conto de Ana Muniz

Vem cá, Menino! Era assim que meu pai me chamava. Penso que, mesmo se eu tivesse trinta anos, ele chamaria do mesmo jeito. Amável, atencioso, cuidadoso. Todos os dias. Na sua conversa tinha sempre novidades, mas me chamava a cada dia igual: Vem cá, menino! Eu me apoiava no seu joelho, quando menor, e ao seu lado me sentava quando crescido. Ouvia o que ele tinha para me dizer com muita atenção. Não sei onde ele arrumava tantas histórias! Eram contos ou até pequenas histórias que levavam dias para terminar. Eu acabava ficando muito curioso, mas ele sabia medir as coisas. Dividia em partes e continuava no dia seguinte. Ele me fazia pensar!... Eu ficava maquinando por horas a fio, tentando adivinhar o desfecho da história. Quando chegava o dia seguinte, ao invés de contar a continuação, ele pedia para eu imaginar como esta seria. Eu já tinha, na ponta da língua, tudo imaginado. Ele ouvia, dava um jeito de encaixar a história dele na minha e continuava. Ele devia saber que isso motivava o meu dia a dia; havia algo excitante nisso. Ele criava, agindo desta forma, um interesse muito forte em mim, de permanecer ali, dentro da minha própria casa. Essa mania que ele tinha de falar comigo todos os dias e da maneira que falava, me deixava muito livre nas minhas atitudes. Seja nas minhas seguranças ou incertezas. Na escola, eu tinha sempre o que trocar com meus colegas. E não era só figurinha. Eles ficavam atentos. Desabafavam comigo, dizendo que com eles isso não acontecia. Que mal eles viam o seu pai. 
Enquanto a sensibilidade de tal velho, meu pai, emergia e contagiava a mim, eu, sem pretender, acabava sendo diferente dos outros. As pessoas gostavam muito de mim. Me cercavam, queriam saber das coisas. Eu via que daqueles relacionamentos nasciam coisas boas. 
Em mim, criança, e depois crescido, formou-se a imagem de um grande homem, tão próximo e integrado a mim. Que não é imagem de herói nenhum, mas, de uma pessoa coerente com os princípios de valorização da vida. Junto a isso, a admiração e o querer ser igual formou-se tão consistente que seus ensinamentos estão presentes em todas as minhas horas. 
Conhecer de verdade meu pai, como ele foi se mostrando para mim desde que eu era menino, e receber seus ensinamentos foi uma grande sorte. Posso dizer que sou um privilegiado. Por certo, ele também o era. Passou para mim o que pôde. O que ele tinha para passar. A sua bagagem de vida. A gente só pode dar o que tem e só pode ensinar o que sabe, não é? 
E o mais interessante, foi que ele me percebeu, mesmo antes que eu nascesse. Na barriga da minha mãe eu já ouvia histórias, segundo contava. 

Ele disse que, com o tato, sentia uma calmaria vinda do interior daquela barriga. 
Quem diria que, então bebê, no berço, eu, melhor dizendo - isso ele mesmo me contou depois - ouvia histórias também!... Muitas histórias. Claro que não eram proibidas. Era de acordo com a idade. Ele falava que eu escutava atentamente. Que sorria, tentava falar. Depois adormecia. 
Na escola, quando chegavam alunos novos, eles não entendiam quando eu dizia que meu melhor amigo era meu pai. Poxa, eu não tinha saída. Era meu pai... Eu não ia mentir. Ele era um amigão. Como se pode ver, ele não foi esse estereótipo de pai que faz pela metade ou de jeito nenhum. Eu sei que tem pessoas assim, que fazem as coisas por obrigação de genitor. Eu já vi. Meu pai, eu sei, gostava de mim. Não era só de mim. Não havia exclusividade. Ele se dava bem com todo mundo. Era elegante. Não tinha preconceitos. Sempre ouvia o que as pessoas tinham para falar. Tinha lá seus defeitos, suas dificuldades. Ele também me falava delas. Me lembro um dia que eu estava sentado à mesa fazendo meus trabalhos de escola, ele chegou, pendurou o chapéu, tirou o paletó, afrouxou a gravata. Isso era comum. Mas, o jeito que ele estava é que me chamou a atenção. Ele suava que escorria pelo seu rosto, parecia tenso, nervoso. Ele só percebeu a minha presença quando eu lhe perguntei se estava tudo bem. Ele nunca havia mentido para mim. Ele me olhou. Ficou parado me olhando, que eu me constrangi. E fiquei preocupado. Parecia que ele não conseguia falar. Quando conseguiu, perguntou-me se eu já havia terminado os deveres. Faltava pouco e disse que tinha tempo, podia ficar para depois. Sentamos no lugar mais simples da casa. No chão. No primeiro degrau, de quem desce, da escada que liga ao quintal. Ele falava tão devagar, que parecia que fazia um grande esforço para as palavras saírem. Filho, perdão! Como assim? Perdão?? Não podia entender. E continuava, fazendo um esforço enorme. Filho, eu não pude te esperar... Perdão!
Foi só o que ele falou.

O que eu posso dizer? Só sei que sinto muita, muita saudade! É uma pena, pois, quando eu nasci, meu pai já havia morrido há dois meses...

 

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O VELHO E O NOVO FAZENDO HISTÓRIA

"Moonlight"

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