UMA PIPA NO CÉU

Conto de Ana Muniz

Uma pipa no céu. É a primeira imagem que me ocorre. Depois a daquela menina. Uma menininha. Olhos vivos. Parecia eletrizada. Corria em círculos sob o fio reto daquela pipa. Seus movimentos negativos pareciam NÃOS menores e maiores. NÃO NÃO NÃO. Não.

Em descompasso, um movimento menor marca o tempo: Uma menina crescida, mocinha, quinze anos. Um menino da escola passa e lhe dá bola. NÃO!

Em descompasso, um movimento maior marca o tempo: Uma moçona, uma mulher. Chora debruçada na almofada. O som do telefone não toca seu coração. Mas abre os olhos e ergue-se com a almofada entre os braços. Os olhos vivos de menina lacrimejam dor. O que posso ver é pouco. Enquanto não me vê imagino o que flui de sua mente. Me aproximo e encontro sua memória transcorrendo. Perdi alguns dados. Onde estão os guardados? Não conheço bem o caminho, mas sei que tem atalhos. Tenho que chegar ao DOC ao TXT. Encontro pastas com código de proteção.

Quantos mistérios tem essa menina que dá voltas que formam NÃOS? O menino que empina a pipa tenta puxar o fio que enroscou em uma árvore. A menina para de correr em círculos. Observa ao longe a pipa que cai lentamente. Caiu. A mulher que segurava a almofada não chora mais. Olha para a pequena tela, navega e pensa. O brinquedo caiu.

Essa atividade de pensar é quase um malogro. O quanto penso tenho mais o que pensar. Ela, menina-não, outra, mulher, sim. Frustração? O que? Ser sim ou não? Será que anotei a minha senha de identificação no mundo? Saberão de mim? Quanta nostalgia flui na eletricidade dessas comunicações! Quanta eletricidade vã. Pequenas letras delineiam meus pensamentos. Clico ENVIAR. Vêm códigos que chegam ora em MPEGs, ora em GIFs. Transfusões de energias. Aqui gasto a minha. Desligo. Será que estou precisando de um pouco de ar?

A mãe da menina bruscamente a toma nas mãos e a conduz contra a sua vontade para o carro e para casa. A menina, no banco de trás, coloca as duas mãozinhas no vidro e a carinha ao meio e olha. O menino ainda não conseguiu desenroscar o brinquedo. A moçona compra, pela primeira vez, uma passagem de avião. No alto, o voo a leva para muito longe. E lá, encontra pela primeira vez: Ela mesma. Sozinha deu conta de si. Começou a cuidar-se.

Texto escrito em 2000. 

​Áudio gravado em Nov/2017

Com Amor, Van Gogh. Clique  e leia sobre o filme no

blog Pensandonofilme.

Clique no link de tocar e escute o texto falado pela autora.

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