Uma das coisas que nunca esqueço é do olhar curioso daquele menino, que todos os dias, na mesma hora, passava na porta da minha casa. Eu, já velho, fazia o que me restava de são: lia e pensava. Sempre tive a memória muito fraca. Nunca fui bom contador de histórias. Contava o início, pulava o meio por esquecimento, e já estava no fim. Tinha vez que eu não me lembrava do fim! Mas, aquele menino que passava ali… Com certeza, algo o trouxe a mim. Não veio de imediato. Passava todos os dias. Um dia ele se aproximou. Queria saber das coisas. Ele me via sempre lendo sentado à porta de casa. Queria saber qual era a história que eu lia, que afinal, todos os dias que passava, me via lendo o mesmo livro. Nunca mudava. Eu não queria contar a ele das minhas dificuldades. Não podia dizer que, quando eu estava no meio da história, eu já havia esquecido o início, e tinha que voltar tudo de novo. Sua curiosidade era tanta, que tive que contar um trecho da história para ele. Contei o início, pois havia recomeçado naquele dia essa parte.

Interessado, todos os dias, ele passava e queria saber a continuação da história.

Para driblar algumas questões, eu inventava. Ele, cada vez mais curioso, quando chegava já dizia um trecho para eu retomar a história. Você parou na parte em que a embarcação ancorou e os viajantes, todos vestidos, avistaram na costa muitas pessoas peladas. Ora, este é o começo…

Um dia, interrompi o que contava a ele para dizer-lhe que aquela história, na verdade, não tinha fim. Claro, mesmo na sua infantilidade, ele sabia que as histórias terminavam de algum jeito. Pois, afinal, o livro não acabava? Como que a história não tinha fim? Eu expliquei a ele que a história continuava em outros livros. E prosseguia a contar: Não estavam vestidas as pessoas, mas usavam muita pintura em seus corpos, penas na cabeça, eram pessoas exóticas. Os viajantes os olhavam com medo e com curiosidade. Havia um medo mútuo. Mas, aos poucos, eles foram, por bem ou por mal, se entendendo. O menino indagava: As pessoas com roupa passaram susto nas pessoas sem roupa? De alguma maneira, sim. Porque umas pessoas tinham roupa e outras não? Bem, as que tinham eram de muito longe e lá se produziam roupas. Enquanto, que nesta praia, nesta terra, não havia essa produção. E havia produção de que? Ele perguntava muito!… Coisas absurdas. Eu tinha que improvisar. Ele gostava quando eu falava dos conflitos, da resistência dos pelados. É, porque não é fácil vestir roupa quando não se quer.

Aquelas pessoas queriam porque queriam imprimir o hábito de usar roupas naquelas outras. Para isso, os viajantes impuseram uma espécie de jogo, assim: Eu dou algo que pode lhe interessar e você me dá coisas que me interessam muito! Os pelados não sabiam do que se tratava, mas, não tiveram escolha. Jogavam. Bem, como se não bastasse, às vezes nas roupas vinham uns pedacinhos de pano costurados na parte de dentro e ali tinha umas coisas escritas. Os estrangeiros, os viajantes do barco, no caso, exigiam dos pelados que distinguissem aquela escrita. Como?! Perguntava o menino. Eles não vestiam roupas e sabiam ler? Não, eles não sabiam ler. Eles se esforçavam… Mas, não foi bem assim…

Logo, até aprenderem a ler, comeram o pão que o diabo amassou, como diz o ditado. Um dia, texto ainda do início do livro, um certo homem, com muita paciência, diferente daqueles viajantes, chegou de uma longa distância e se reuniu com vários dos pelados e passou a dar-lhes lições orais sobre a existência de um Deus único. Depois de um certo tempo, ele fundou uma escola. Ali, deu a alguns pelados ensinamentos da escrita. O menino me dizia que não gostava do jeito que aqueles acontecimentos se sucediam. Ele entendia que os pelados possuíam uma terra que, tendo despertado o interesse daqueles estrangeiros, haveria de ter muitas riquezas. E via, também, que aqueles homens estrangeiros, estavam fazendo o que não deviam para ficar morando ali, usufruindo de tudo, como se fosse a sua casa. A essa altura, eu achava que o menino estava sabendo muito. Tinha dias que ele chegava e me falava um trecho da história que eu não me lembrava mais… Que menino danado! Lembrou-me que muito tempo depois desse acontecimento, as pessoas peladas já sabiam ler e, enfim, os estrangeiros introduziam cada vez mais a sua cultura ali, mas também absorvia a do outro.

Naquela terra, olha que não era pequena!, por todos os cantos, já havia povoados com muitas pessoas. Era estranho, porque o livro conta que, até então, todos os pelados viviam sadios, caçavam, pescavam, nadavam, viviam bem em seu ambiente. Depois da chegada dos estrangeiros, os pelados começaram a ficar doentes e morrerem… No dia seguinte, o garoto, chegava e lembrava… Morreram muitos. Não só de doenças. Por briga também, tentando resgatar a liberdade que os estrangeiros tomaram deles. E na sua própria casa! Mas como eles eram tantos, muitos aguentaram e ficaram vivos.

Além dos pelados e estrangeiros, começaram a surgir outros povos, muitos negros e outros brancos. Sendo que os negros trabalhavam para os brancos. E os pelados também. Os negros só faziam as coisas sob mando dos seus patrões estrangeiros. Isso durou muito tempo, até vir uma mulher e romper com essa ordem de trabalho. Desde esse rompimento, cada negro pode trabalhar como quisesse. Bem, talvez também não tenha sido bem assim…

Como é que esse menino tinha cabeça para guardar tanta coisa! Um dia o peguei inventando, pois era justamente na página que eu estava. Eu não o contrariei, deixei que ele inventasse. Afinal, por que não? Eu também inventava! Depois de sua criação, ele queria saber mais. Indagou que nós não havíamos falado de como eles se comunicavam. Eles falavam a mesma língua? Não. Claro que não. Muitos gestos. E aos poucos foram se entendendo. Por bem ou por mal. Na verdade, os estrangeiros ensinaram aos pelados a falarem como eles. Que por coincidência era uma língua muito próxima dessa que falo com você. Ora, os estrangeiros eram muito espertos. Eles não queriam ficar falando como os pelados. Era uma língua complicada. Mas, não foi apenas a língua que eles impuseram. Além de tomarem posse da terra, provocaram o cruzamento com os pelados e os negros. E foi daí que surgiram as pessoas de cores misturadas. Claro, que esse cruzamento não acontecia só por espontaneidade, muitas mulheres eram forçadas a ceder à vontade dos nobres estrangeiros. Meu Deus! Quando eu vi já tinha falado isso… Olhei para o garoto, ele tinha os olhos arregalados, parecia enfurecido. Então, não teve jeito, tive que dizer que eu estava inventando. Tentei mentir porque não queria passar aquela imagem para o menino. Eu vi que ele estava impressionado.

Nos dias seguintes, continuávamos, à nossa maneira, a velha história… Com essa dependência criada ao livre arbítrio de quem chegou à terra dos outros, enquanto uns submetiam-se, outros rebelavam-se. Teve um caso de um homem, que teve o seu rosto desconhecido na posteridade, mas a imagem que fizeram dele era muito semelhante à de Jesus Cristo. Esse homem fez de tudo para libertar os pelados e aquelas gerações que surgiram dos cruzamentos, das garras dos mandantes estrangeiros. Houve muitas batalhas. Em vão? Não, certamente. Os resultados foram aparecendo aos poucos, até que esse povo gerado do cruzamento chegasse a conseguir sua autonomia. Eles já podiam estabelecer as próprias leis. Ora, isso é conseguir muito! Diziam que não precisavam mais obedecer às ordens vindas dos superiores dos estrangeiros puros. Isso é o que fala no livro.

Apesar de observar que o menino gostava da política e das intrigas, eu, cá comigo, pensava que esse era um assunto muito pesado para ele. E tentava desviar a história, para torná-la mais branda. Até porque tinha trechos que eu havia esquecido. Mas, quando comecei a falar de povo reunido, de votação, que as pessoas puderam escolher o homem, então, um político, que mandaria em tudo e estabeleceria as leis, ele falou que isso ele sabia… Concluí, então, dizendo que a nova população, que é formada pelos pelados, brancos e negros conseguira povoar espaços distintos em tal continente. E agora faz deles o que bem quer.

O menino olhou-me desconfiado. O que foi? Perguntei. Ele não quis dizer nada. Baixou a cabeça. Parecia inconformado com o desfecho da história. Eu tive que retornar ao que disse: Eu disse a você que a história não tem fim… Ele não se conformou. Virou para mim. Eu sei como ela termina! Sabe? Sei. Então conta. Eu sei que pouca gente da nova população tem comida. Muitos não sabem como pescar. Nos rios não se pode mais nadar. Estão sujos. Outros nem água tem…

Ele falava com tanta convicção, que parecia que era hoje. E indaguei. Sim, e como termina? O menino não falava coisa com coisa. Parecia comprometido com a história. Começou a falar palavras soltas: Política. Político. Poder. Perigo. Palavra. E repetia: Poder. Posse. Palavra.

Vendo-o confuso, tentei concluir com ele. Você acha, então, que esses habitantes se misturaram e a maioria passa por muitas dificuldades, é isso? Desfalcados de seus meios, passaram a necessitar de recursos que não lhes eram oferecidos? Precisam de ajuda de quem não está nem aí…? Silêncio.

Pobre menino! Quem sabe, com sorte, ele vai longe… Emudeceu-se, virou as costas e saiu, cabisbaixo… Volta aqui, menino! Volta! Ele não voltou. Não mais voltou.

Agora, relendo o livro, vejo que muitos momentos da história ficaram esquecidos, mas eu volto para contar…

conto de Ana Muniz

Deixe seu e-mail abaixo:

Inscreva-se para receber atualizações do site